O termo militância vem de militar, e carrega em si um posicionamento político fundamentado na luta sob circunstâncias armadas. Embora não implique grosso modo que seja uma postura restrita a tal. Como se sabe, as palavras evoluem semanticamente e nesse caso específico, qualquer um que defenda uma ideologia, milita por ela, com ou sem violência. Houve um tempo, e é evidente que ainda nos situemos historicamente, em que grupos específicos necessitaram de um processo de resistência, afirmação e defesa dos seus direitos. Os negros, os homossexuais, as mulheres, e outros grupos específicos que estiveram e estão em voga ainda hoje.
O racismo é abominável aos olhos da contemporaneidade. Mas existe um equívoco quando se fala a respeito. A questão é que outras etnias estão ou foram esquecidas por conta do volume de protestos relacionados ao racismo africano. Os nativos (ou índios) de toda a América, aborígines australianos, palestinos, dentre outras etnias, caíram no descaso do discurso anti-racista. Os movimentos de defesa dos direitos sócio-políticos dos negros são louváveis no desdobrar histórico, mas militar requer um tipo de comprometimento que pode beirar o fanatismo, principalmente quando é liderado por negros ou os ditos simpatizantes extremistas. A auto-afirmação de um grupo racial não pode ultrapassar suas conquistas; não pode ter caráter substitutivo em relação a uma hegemonia anterior. Devemos convir que toda massa mobilizada pelo ressentimento ou discurso apaixonado, devido a acontecimentos passados, não está uníssono informada sobre todas as questões que lhe diz respeito. Não seria o processo de militância em prol da “igualdade” de cidadania dos negros, que hoje se configura mais como grupo-alvo de discriminação racial, um tipo de persistência ad infinitum tendenciosa que cria aberturas para uma tentativa de sobreposição étnica? Vestir uma camisa com a frase “100% negro” é, no mínimo, estranho, quando não, uma afronta àqueles outros grupos já citados aqui. E é também uma manifestação racista, tanto quanto seria se o slogan fosse “100% branco”, ou palestino, indígena e assim por diante.
O feminismo parece ser uma novidade na história, mas não é. Aristófanes, ha cerca de 2.400 anos atrás, concebeu uma sociedade utópica, na qual a mulher estaria numa posição acima do homem, nas questões políticas e sociais. O movimento feminista dos séculos XIX e XX foi importante, e até necessário, para que se rompessem os paradigmas que colocavam a mulher numa condição de inferioridade diante do homem. Isso não quer dizer que a tão sonhada igualdade de gênero devesse ser aplicada de forma generalizada. Homens e mulheres têm suas diferenças, e negá-las é violar princípios fundamentais no campo da biologia e até da psicologia: homem e mulher são anatômica e psicologicamente diferentes, quer queiram ou não. Em muitos aspectos da vida eles se portam de maneira peculiar, para não dizer antagonicamente. A importância da questão diz respeito às conquistas das mulheres em sua participação efetiva nas decisões políticas, em seu enquadramento no mercado de trabalho, nos direitos conquistados no quesito violência, mas nunca relativo aos tipos de igualdade já citados. Se assim fosse, poderiam ser aplicadas leis que considerariam certos aspectos também atenuantes para os homens, visto que para a mulher, existem de fato – os homens não têm TPM e a depressão pós-parto, portanto, se configuraria hipoteticamente sua desvantagem, por exemplo, na área criminal.
A homossexualidade é um tema que incomodou bastante a moral religiosa. Mas antes de existirem as religiões proeminentes, a prática homossexual em culturas antigas como a greco-romana, tinha um valor cultural que se colocava distante da excentricidade. A “geração 68” foi um movimento crucial, embora utópico, que marcou e demarcou o tempo que se sucedeu. A luta pela liberdade sexual foi bem engajada e contou com grandes contribuições nas artes, na literatura, na música, nos protestos etc. Mas amor e sexo são coisas distintas. A partir dos anos 60, numa era pós-guerra, foi importante impor o “amor” em detrimento do que a humanidade já presenciara. Só que esse amor, como expressava as canções da época – “all we need is love” (tudo que precisamos é amor) -, era, talvez, ambígua e proposital, por conta da guerra e da repressão sexual daquela época. Paradoxos à parte, o que se pode obter dessa revolução é quase uma nova (conquanto antiga) imposição cultural. E é daí que nascem algumas questões: Todos “são” gays? Todos “devem” se tornar gays? Todos devem partilhar da cultura do “amor-livre”? Porém, não é a moralidade religiosa que vai respondê-las, e sim a disposição individual em frente a esses referenciais da pós-modernidade. A homossexualidade e a liberdade sexual não devem e nem podem ser impostas a ferro e fogo, como também não devem ser alvejadas de forma opressora por quaisquer grupos radicais. Mas fazem parte de uma utopia e, portanto, é imprescindível que se tenha cuidado em fazer apologia, tanto a uma quanto à outra coisa.
O ateísmo talvez seja o grande problema. Primeiro, porque os negros que lutam pelo fim definitivo da escravidão, as mulheres emancipadas militando pelo fim da diferença de gênero, e também os homossexuais na busca de provas para sua normalidade na postura sexual que se assumem, estão longe de se meterem numa briga de desvantagem. Talvez não tenham se dado conta de que vivemos uma época de emancipação do pensamento, da crítica, do empirismo e do ceticismo. Gays, negros e feministas podem não ter percebido também, que quem os reprimiu foram os religiosos fundamentalistas. O ateísmo não é determinista, mas é subjetivo. Um fator subjetivo que nasce da objetividade, na maioria dos casos. A filosofia, as ciências, o despertar do indivíduo descontente em relação às certezas e os dogmas religiosos, são alguns combustíveis que alimentam essa tendência. Mas militar pelo ateísmo teria uma tonalidade catequizadora, desrespeitosa e parcial. Os ateus mais ponderados estão aí para promover um tipo de conscientização do ser ateu, o que difere da institucionalização do ateísmo como corrente ideológica que finda todo avanço do conhecimento humano. Ser ateu, tal como se entendem, é não acreditar em divindades. Assim como ser cético significa “olhar de longe”. Então, dissolvida a problemática, o que sobra é “não incutir o ateísmo ou o ceticismo” a outros, mas tornar possível o diálogo e nele, discutir modelos, verdades e perspectivas, e nunca o que deve ou não ser considerado como verdade absoluta.
O que se conclui aqui é que nenhuma militância é sadia, pois ela implica em manipular ao invés de tão somente influenciar. E a influência não obriga ninguém a seguir qualquer tendência ideológica.