Taciturno

E ainda que ao amor entregue todo o meu talento
Tendo as saídas que me convidam com carícia sob o sol a pino
E que a sombra da maldade seja meu lugar de contentamento
Viverei incólume na secura do acaso sem destino

Em terras alheias hei de curar meu sangue com semente proibida
Embriagar-me no fel ofertado em taça sem penhor
Fazer do delírio a única chance de me afogar na partida
E no apreço do execrável lançar à sorte as paixões e seu labor

Hei de ferir-te como sou capaz de a mim mesmo amar
Pondo-te a parte junto às coisas que julgo sem valor
Mesmo não sendo nem um pouco capaz de te odiar
A ufania sonora do teu nome não será o meu calor

As promessas que farei cedo irão se dissipar
Nesse vento controverso que amargou o meu querer
Ao invés de dar-me brilho fez meu grito dilatar
Agora inerte, taciturno, de soslaio… volver

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Atrito

Que eu possa sublimar o sentimento que me apossa
Que destroça cada pedaço que me resta
Me arrasta como se tudo na mente suposta
Fosse o atrito do brio e a prosa
Deslancha cada fúnebre proposta
No seio infinito da má sorte que me presta

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Era uma vez

Era uma vez…
E por conta de tudo que se quis
Guardava para o grande momento
O último suspiro

Um escritor fracassado
Um poeta não lido
Um musicista abandonado
Um sonhador desiludido

Era uma vez…
E por conta de tudo que não queria
Guardava pra depois do momento
O último papiro

Uma criança que chorava
Um adolescente que não ria
Um jovem rebelde sem causa
Um homem que partia

Era uma vez…
E por tudo que tinha em conta
Não guardava nada pra depois
Do ultimo tiro

Um olhar embaçado
Um aprisionado no destino
Um coração quase parando
Uma voz desprovida de tino

Era uma vez…
E por conta de todas as vezes
Não deixava de guardar nada
Um ultimo giro

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Obrigado

Obrigado por não me escutar
Por me ter ignorado
Quando a vontade de gritar
Estava ali do meu lado

Obrigado por dizer não
Quando eu não tinha companhia
Por ter vindo na contra mão
Por ter sido quem não queria

Obrigado mais uma vez
Mais uma vez obrigado
Pela sua insensatez

Não pense que estou chateado
Com a sua displicência
Só me deixa dizer obrigado.

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Quando

O poema me pariu
Quando eu pari
O poema

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A Lâmina

Afiada lâmina do existir
Corta momentos sem compaixão
Desarticula o já sem articulação
Moléculas que preferem partir

Arpejos dissonantes sorumbáticos
Há vida na vida que perpetrava
De inóspito a incólume se tornava
Contra si os desejos eletrostáticos

Afinada a lâmina apetecia saber
A quem cortar e despedir
Do nada ao nada vestir
Um Rei nu que queria poder

Alhures dóceis paradisíacas
Mesmo senis tergiversadores
Supunham beber suas dores
Em suas escavacadas dionisíacas

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