Quando se constrói um texto a partir da abordagem filosófica, reivindicando pensadores que mais se destacaram na história, algumas pessoas fazem de conta que não lêem ou simplesmente ignoram o que está sendo proposto nele. A filosofia começou a ganhar força no pensamento e no decurso do tempo a partir do Iluminismo, e estoura no século XX com os “pós-nietzscheanos”. Mas antes de Nietzsche e dos seus “continuadores”, já se tinham nomes de peso e que são muito úteis como “notas de rodapé” em vários escritos, ainda hoje. Dentre tantos, destacaram-se Baruch de Espinoza, um grande racionalista da era moderna, Søren Kierkegaard, considerado o “pai do existencialismo”, Immanuel Kant, Comte, Hegel, Marx, Schopenhauer etc. Mas, quem já ouviu falar no padre Alfred Loisy, Paul Tillich, Karl Bultmann, Karl Barth, Teilhard de Chardin e Martin Buber? Por certo, uma minoria. Outros que ainda estão dando contribuições para a evolução do pensamento – a filosofia -, são Rubem Alves e Leonardo Boff. Destes, podemos enfatizar obras valiosas como “O que é religião?”, “Conversas com quem gosta de ensinar”, “Entre a ciência e a sapiência” e “A águia e a galinha”. Os citados mais acima, filósofos-teólogos ou teólogos-filósofos, tanto faz, estão quase que esquecidos nas estantes, empoeirados, como pessoas-livros desinteressantes e desacreditados.
São dignos de destaque, já que foram em uma boa parte esquecidos, pensadores como Paul Tillich, o padre Alfred Loisy e Teilhard de Chardin. O que esses homens tinham em comum é o fato de que eram Teólogos, que ascenderam o pensamento crítico e (re) acenderam a chama do que hoje entendemos como Filosofia.
Tillich, homem culto, bem formado e informado, desmistificou muita coisa no âmbito teológico. Nele garimpamos tantas pedras preciosas, informações importantes na crítica teológica que até então estavam guardadas a “sete chaves”. Sua leitura nos faz entender, tanto como se dá a articulação da imposição teológica ao leigo, quanto cria aberturas consistentes e fundamentadas na sua área, que, diga-se de passagem, é uma autoridade e ponto, e o resumo de toda sua obra nos oferece maravilhosamente uma compreensão do que é e não é, dentro da perspectiva de que a massa é de fato mal informada que chega ao ponto de aceitar toda e qualquer interpretação dos escritos ditos sagrados. Com ele entendemos que a hermenêutica exegética e sistemática é importante… o resto é balela e manipulação.
O padre Loisy é de uma sinceridade tamanha na historiografia religiosa e seus novos métodos teológicos lhe custaram a cátedra de Filosofia na Universidade de Paris e excomunhão da Igreja Romana em 1908. Ele desenvolveu um projeto de pesquisa, que a priori pretendia provar a historicidade de Jesus, e concluiu que não havia nenhum documento indubitável que resolvesse o problema da existência do cristo.
Chardin foi um notável pesquisador da evolução do Planeta, crítico do dogma “pecado original” – nesse ponto ele é obrigado a assinar uma retratação e conseqüentemente abandona o ensino acadêmico em Paris -, e seu poder investigativo causou sucessivas proibições de publicação, mas deixou um legado extraordinário de seus domínios científicos. O que mais influiu dele foi a idéia de desarticular a dicotomia ciência-religião.
Costumam-se fazer uma “conclusão” para artigos, resenhas, escritos de forma geral. Este escrito trata de um convite à reflexão e, ironicamente, uma sugestão para aqueles que gostariam de conseguir a Bulla Ex Communio. Dizem por aí que existe, se não um movimento articulado, mas um grupo de pessoas isoladas pleiteando-a.
Et maintenant, à vous!
Eu que não fumo, queria um cigarro…
Cigarro faz mal à saúde. Cigarro mata, deixa o homem impotente, causa câncer, tem milhares de substâncias tóxicas e blá. O governo gasta o dinheiro público com campanhas contra o seu consumo. Cerca de vinte milhões de brasileiros vive na miséria. Falta-lhes emprego, moradia, educação e tantas outras coisas fundamentais para sua sobrevivência, mas o cigarro mata… mais ou menos que a marginalização que o sistema determina na conjuntura ideológica operante no país? Parece que os focos das preocupações dos poderes que regem a nação recaem sobre o prazer, digo, para coibir o cidadão na sua busca pelo prazer. Há tanta coisa mal direcionada: a polícia, a penitenciária, as leis, a moral… tudo isso busca uma tentativa de colocar as coisas em ordem aqui embaixo da linha do equador. Para os consumidores do álcool, aquela mensagem clichê de sempre “se beber, não dirija…”, aos fumantes “cigarro causa dor”. Onde está a maior dor? É certo que o indivíduo nem sempre se delibera quanto ao uso de drogas, lícitas ou ilícitas, e é de se convir que o mesmo tenha certa liberdade para escolher aquilo que lhe proporciona algum tipo de bem-estar.
E naquelas horas em que a ansiedade chega ou talvez por um momento em que o sujeito dá mesmo vontade de fumar porque está apaixonado? O cigarro lhe cai bem e junto com ele o estigma de “fumante”. “Fugir da realidade ou tentar se sobrepuser a ela através do uso de qualquer droga não é certo, não resolve”, diz o senso comum. Por um lado há um tanto de verdade nisso, mas, por outro, deveria se levar em consideração outras drogas mais pesadas, como a religião. “A religião é o ópio do povo”, dizia Marx. Ele “peca” ao investir tal aforismo? Não, embora não esteja de todo correto. “A religião é o placebo das massas” é uma colocação mais apropriada na questão. Você não pode isso, aquilo e aquilo mais, porque não pode e ponto final. Como assim “não pode”? Quem está sob a epiderme de cada um pra saber o que se pode ou não? Os mais ou menos religiosos até bebem vinho, mas fumar… não, Jesus não fumou! Eis o modelo do que se deve ou não fazer. O que é oferecido sem bandeja prateada é um cardápio de miséria, fome, dor e preconceitos.
Quando alguém que não fuma quer um cigarro, certamente tem suas razões, assim como o imaculado sem álcool no sangue. No filme “Obrigado por fumar” há uma discussão sobre o fumo, o filho do protagonista fora instruído na escola que não se devia fazer, dentre outras coisas, uso dele. Seu pai intervém dizendo algo assim: “nunca deixem que te digam o que fazer. A professora é um perito? Se não, não lhe dê ouvidos”. A mensagem aqui é que se tem uma educação escolar baseada na ignorância. Professores de matemática, que não fizeram medicina, não devem assumir o papel de um especialista em tabagismo… eles não têm sequer bacharel em medicina! A manipulação de comportamento está distribuída erradamente na sociedade. Médicos não são autoridades para determinar a fusão nuclear; geólogos não têm suporte teórico ou empírico para dizer com propriedade que a interação do consciente com o inconsciente se dá desta ou de outra forma; assim como os psicólogos não devem se meter onde sua especialização não alcança.
A grande questão aqui é a liberdade humana de decidir fazer o que quer, e se adentrarmos corretamente no Hedonismo, percebemos ali, muito diferente de qualquer outro lugar, que o que é correto fazer é aquilo que dá prazer, numa perspectiva ética de respeito à felicidade do outro. Esse Hedonismo, com H maiúsculo, é uma filosofia antiga, e, portanto, propõe que a felicidade do ser humano é determinada pelo prazer que ele tem em fazer qualquer coisa que lhe agrade, desde que tal coisa não prejudique a si e ao outro. Parece contraditório com o discurso que defende o uso do tabaco. Não é a apologia ao tabagismo, mas à liberdade do homem, da mulher e até, da criança, dentro dos limites que lhe cabem, de exercê-la.